Sonhar com alguém que não vemos há anos, voltar a um lugar da infância ou viver uma situação que parece impossível. Durante o sono, o cérebro pode construir experiências com imagens, sons e emoções que parecem reais. Muitas desaparecem da memória minutos depois de acordarmos. Outras permanecem por dias.

Apesar de décadas de pesquisas, a ciência ainda não encontrou uma resposta definitiva para uma pergunta antiga: por que sonhamos? Os estudos mostram que os sonhos estão relacionados à atividade cerebral durante o sono e podem envolver lembranças, sentimentos e acontecimentos recentes. A função exata dessas experiências, porém, continua em debate.

O que acontece no cérebro quando sonhamos?

Ao longo da noite, o organismo alterna diferentes estágios de sono. Há três etapas do sono não REM e uma fase chamada REM, sigla em inglês para movimento rápido dos olhos. Esses estágios se repetem em ciclos de aproximadamente 80 a 100 minutos, geralmente quatro a seis vezes durante uma noite.

O sono REM é caracterizado por intensa atividade cerebral, movimentos rápidos dos olhos e redução temporária da atividade de vários músculos do corpo. É nessa fase que costumam ocorrer os sonhos mais vívidos e com narrativas elaboradas. A redução dos movimentos musculares ajuda a impedir que a pessoa reproduza fisicamente parte do que está sonhando.

Mas os sonhos não são exclusivos do REM. Pesquisas com registros da atividade elétrica do cérebro mostram que experiências oníricas também acontecem no sono não REM. Em 2017, um estudo divulgado pelo Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos identificou padrões de atividade em regiões posteriores do córtex associados à presença de sonhos, independentemente da fase do sono.

Por que sonhamos? A ciência ainda investiga

Uma das hipóteses estudadas é a de que os sonhos participem do processamento de memórias. Durante o sono, o cérebro reorganiza informações adquiridas ao longo do dia. Fragmentos dessas experiências podem aparecer nos sonhos, às vezes combinados com lembranças antigas ou com cenas que nunca aconteceram.

Outra linha de pesquisa investiga a relação com as emoções. Um estudo publicado na revista Scientific Reports, em 2024, encontrou associações entre a experiência de sonhar e mudanças no processamento de memórias emocionais após o sono. Os resultados contribuíram para a discussão sobre o papel dos sonhos nesse processo, mas não demonstram que essa seja sua única função.

Também existem teorias que interpretam os sonhos como parte da atividade espontânea do cérebro durante o descanso, sem uma finalidade específica. Revisões científicas recentes ressaltam que nenhuma explicação isolada reúne evidências suficientes para encerrar o debate.

Por que sonhamos com pessoas e situações do passado?

Os sonhos frequentemente misturam elementos de experiências recentes com memórias mais antigas. A combinação ajuda a entender por que uma pessoa pode aparecer em um ambiente que não conhece ou por que acontecimentos de épocas diferentes surgem na mesma história.

Em um experimento publicado na revista Sleep Advances, em 2025, pesquisadores pediram que participantes recordassem uma experiência emocional antiga antes de dormir. Depois, os relatos de sonhos apresentaram mais elementos ligados à lembrança evocada do que na condição de comparação. O estudo envolveu 34 participantes e sugere que acontecimentos do passado podem influenciar o conteúdo dos sonhos quando são reativados antes do sono.

A descoberta não significa que todo sonho contenha uma mensagem oculta sobre o passado. Ela indica que o conteúdo das experiências noturnas pode ser afetado pelo que a pessoa vive, recorda e sente.

Por que algumas pessoas lembram dos sonhos e outras não?

Esquecer os sonhos é comum. De acordo com o Instituto Nacional de Distúrbios Neurológicos e Derrame dos Estados Unidos (NINDS), as pessoas podem passar aproximadamente duas horas por noite sonhando, embora não se lembrem da maior parte dessas experiências. A duração varia e não pode ser medida com precisão apenas pelo relato de quem acordou.

Em 2025, uma pesquisa publicada na revista Communications Psychology acompanhou 204 adultos que registraram suas experiências ao acordar durante aproximadamente duas semanas. Foram analisados 2.900 relatos matinais. Os resultados associaram a lembrança dos sonhos a fatores como interesse pelo assunto, tendência a divagar durante o dia e características dos padrões de sono.

Os pesquisadores também observaram que alguns participantes acordavam com a sensação de ter sonhado, mas não conseguiam recuperar o conteúdo. Esse fenômeno é conhecido como sonho branco. A pesquisa sugere que a memória da experiência pode desaparecer rapidamente durante a transição entre o sono e o estado de vigília.

Quem deseja registrar os sonhos pode manter um caderno próximo à cama e anotar o que lembra logo após acordar. Essa prática pode facilitar a observação de padrões pessoais, mas não garante que todos os sonhos sejam recordados.

Os sonhos têm significados universais?

Sonhar que está caindo, perdendo os dentes ou sendo perseguido costuma despertar curiosidade. Na internet, é comum encontrar listas que atribuem um significado fixo a cada situação. Entretanto, não há base científica sólida para afirmar que determinado símbolo tenha a mesma interpretação para todas as pessoas.

Segundo pesquisadores vinculados ao projeto Dream Research, da Universidade da Califórnia em Santa Cruz, os sonhos podem ser analisados em relação à história e às experiências de cada indivíduo, mas não existe um dicionário universal de símbolos validado pela ciência. Também não há evidências confiáveis de que sonhos permitam prever acontecimentos futuros.

O que são sonhos lúcidos?

Nos sonhos lúcidos, a pessoa percebe, enquanto ainda está dormindo, que está dentro de um sonho. Em alguns casos, consegue influenciar parte dos acontecimentos. O fenômeno é objeto de investigações sobre consciência, atividade cerebral e possíveis aplicações terapêuticas.

Uma revisão publicada em 2025 na revista Neuroscience & Biobehavioral Reviews descreveu os sonhos lúcidos como experiências relativamente raras, mas que podem ocorrer espontaneamente ou após treinamento. Os autores destacam que os estudos sobre possíveis benefícios e riscos ainda precisam avançar, sobretudo quando se trata de aplicações clínicas.

E os pesadelos: quando merecem atenção?

Os pesadelos são sonhos desagradáveis que podem provocar medo, ansiedade e despertar repentino. Episódios ocasionais são comuns. Estresse, privação de sono, experiências traumáticas e alguns medicamentos podem contribuir para sua ocorrência, embora as causas variem entre indivíduos.

Segundo a Mayo Clinic, os pesadelos merecem avaliação profissional quando se tornam frequentes, prejudicam o descanso, provocam receio de dormir ou interferem nas atividades do dia seguinte. Há abordagens terapêuticas para esses casos, incluindo técnicas que trabalham a reescrita de sonhos recorrentes.

O conhecimento sobre os sonhos continua avançando à medida que novas técnicas permitem observar o cérebro durante o sono. Por enquanto, a conclusão mais consistente é que essas experiências fazem parte da atividade mental noturna, dialogam com memórias e emoções e ainda apresentam perguntas sem resposta definitiva.