Imagens de dragas em chamas e equipamentos sendo destruídos em rios da Amazônia ganharam repercussão nas redes sociais nos últimos dias. Os vídeos mostram ações de fiscalização contra o garimpo ilegal, com agentes federais utilizando explosivos para inutilizar estruturas empregadas na extração de ouro. A circulação das cenas acompanha uma sequência de operações da Polícia Federal (PF) e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), principalmente em Rondônia e no Amazonas.
Uma das ações que motivaram as publicações foi a Operação Nêmesis, realizada em 27 de outubro no Rio Madeira, em Rondônia. Na primeira fase, os agentes inutilizaram 72 bens utilizados pela atividade ilegal. O número engloba dragas, embarcações menores, motores e bombas, e não 72 dragas, como pode sugerir a divulgação resumida dos resultados.
A destruição dos equipamentos chama a atenção pela dimensão das estruturas e pela intensidade das imagens. Mas a medida tem justificativa prevista na legislação ambiental e é adotada quando a remoção ou a guarda do material se torna inviável, ou quando sua permanência pode representar riscos. A inutilização também procura impedir que o maquinário volte a operar após a saída das equipes de fiscalização.
Operação Nêmesis inutilizou 72 bens no Rio Madeira
Na ação de 27 de outubro, realizada entre os distritos de Calama e São Carlos, em Porto Velho, foram inutilizadas 17 dragas, dois rebocadores, três voadeiras, 21 motores, 25 bombas de draga e quatro bombas de água. A PF também informou a inutilização de cerca de 16 mil litros de óleo diesel destinados a abastecer as estruturas do garimpo.
Durante a fiscalização, os agentes apreenderam três frascos de mercúrio e oito aparelhos celulares. Segundo a Polícia Federal, os materiais serão analisados para ajudar a identificar os responsáveis pelas dragas, os financiadores e outros participantes da cadeia de exploração ilegal.
A segunda fase da Operação Nêmesis ocorreu em 30 de outubro, em outro trecho do Rio Madeira, acima da Usina Hidrelétrica de Jirau. A fiscalização, conforme a PF, concentrou-se em pontos nos quais as dragas operavam sem Permissão de Lavra Garimpeira e sem licença ambiental. Para localizar as estruturas irregulares, os agentes compararam sua posição com os registros da Agência Nacional de Mineração (ANM).
A PF estimou que as dragas encontradas nesse trecho tinham valor médio superior a R$ 4 milhões cada. O porte dos equipamentos foi apontado pela corporação como indício de uma atividade estruturada e de grande capacidade de extração, distante da imagem de um garimpo individual e rudimentar.
Por que os agentes explodem máquinas e embarcações?
O artigo 111 do Decreto nº 6.514/2008 prevê a destruição ou inutilização de produtos, equipamentos e instrumentos empregados em infrações ambientais em determinadas circunstâncias. Entre as condições consideradas estão a impossibilidade de transporte ou guarda e os riscos associados à manutenção desses bens no local.
No trecho fiscalizado próximo à usina de Jirau, a PF informou que as dragas estavam a cerca de 27 quilômetros da barragem, sem meios adequados de reboque ou local compatível para armazenamento. Por isso, segundo o órgão, não havia condições práticas de removê-las.
A corporação também afirmou que as equipes retiraram previamente o mercúrio metálico e outras substâncias nocivas identificadas a bordo, para evitar o lançamento desses materiais no rio durante a inutilização. Foram apreendidos ainda armas e equipamentos utilizados no processamento do ouro.
A destruição, portanto, não é uma etapa obrigatória de toda apreensão. Trata-se de uma medida sujeita a requisitos legais e operacionais. É importante observar que vídeos compartilhados fora de contexto nem sempre permitem identificar, por si só, a data, o local ou a operação em que foram registrados.
Outras operações atingiram estruturas de garimpo no Amazonas
A ofensiva federal não ficou restrita a Rondônia. Em 30 de outubro, PF, Ibama e Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) participaram da Operação Aurum, no Alto Rio Solimões, próximo à comunidade de Santa Rita do Weill, em Tabatinga, no Amazonas. O balanço oficial relaciona três dragas pequenas, cinco médias, sete estruturas conhecidas como motor-balsa e uma embarcação do tipo rabeta entre os equipamentos apreendidos ou inutilizados.
No fim de setembro, a Operação Hidra Dourada havia atuado no Rio Madeira, entre Autazes e Novo Aripuanã, também no Amazonas. Em 18 ações de fiscalização, realizadas entre os dias 21 e 25 daquele mês, a PF e o Ibama destruíram 22 dragas e cinco embarcações de apoio. Apreenderam ainda uma arma de fogo, munições e celulares.
Outra frente recente ocorreu em 29 de outubro, na Terra Indígena Kayapó, no Pará. Na Operação Escudo, conduzida pela PF e pela Funai, foram inutilizadas três escavadeiras hidráulicas, três caminhonetes, quatro motocicletas, oito motores e 19 estruturas de acampamento. A ação também resultou no resgate de um trabalhador ferido, que foi levado para atendimento hospitalar. Nesse caso, a participação informada oficialmente foi da PF e da Funai, sem indicação de atuação do Ibama.
Mercúrio e danos aos rios ampliam o impacto ambiental
Além da retirada de ouro sem autorização, as investigações apontam a utilização de mercúrio, substância tóxica empregada para separar o metal de outros materiais. Quando lançada no ambiente, ela pode contaminar a água, os sedimentos e os peixes, afetando especialmente comunidades que dependem da pesca.
O Ministério da Saúde alerta que a exposição ao mercúrio pode atingir populações indígenas, ribeirinhas e outros grupos que consomem pescado com frequência. O garimpo também pode provocar alterações nas margens e no leito dos rios, aumentar o volume de sedimentos em suspensão e comprometer os ecossistemas locais.
No Rio Madeira, a PF informou que imagens de satélite registravam dragas reunidas em áreas de exploração irregular desde abril de 2025. Para os investigadores, o deslocamento dessas estruturas e as mudanças nas margens indicavam a continuidade das atividades apesar das fiscalizações anteriores.
Investigações buscam financiadores e a origem do ouro
A repressão ao garimpo ilegal também passou a mirar o abastecimento das dragas e o dinheiro que mantém as operações. Em 29 de outubro, a PF deflagrou a Operação Navegação Paralela, em Manaus, contra um grupo investigado por fornecer insumos, transporte e suporte operacional para atividades de mineração clandestina. A Justiça Federal determinou o bloqueio de bens e valores superiores a R$ 35 milhões. Os fatos ainda são objeto de investigação.
Outra iniciativa foi anunciada em 3 de novembro, quando a Polícia Federal inaugurou, em Brasília, um laboratório de geoquímica forense destinado a identificar a procedência do ouro por meio de análises científicas. A estrutura integra o Programa Ouro Alvo e poderá auxiliar investigações sobre a circulação do minério extraído ilegalmente.
As cenas de explosões que circulam nas redes tornam visível uma parte das operações. A estratégia de fiscalização, porém, envolve também o rastreamento de equipamentos, combustíveis, mercúrio, transporte e recursos financeiros. As investigações continuam para identificar os responsáveis pela atividade ilegal e os participantes de sua cadeia econômica.

