Ninguém minimamente sério pode discutir os resultados de Abel Ferreira no Palmeiras. O português construiu uma história impressionante no clube, tornou-se em 2026 o treinador com mais títulos da história palmeirense e chegou à marca de 11 conquistas. É um trabalho que merece reconhecimento e respeito. Mas existe uma diferença enorme entre respeitar o profissional vencedor e aceitar tudo o que ele faz.

E talvez tenha chegado a hora de o futebol brasileiro discutir seriamente o comportamento de Abel Ferreira.


Porque não estamos mais falando de um episódio isolado, de uma explosão eventual ou de uma reação de cabeça quente. Estamos falando de um histórico de confrontos, reclamações, gestos e respostas agressivas que acompanha o treinador há anos.No último fim de semana, contra o Mirassol, Abel novamente transformou sua insatisfação com a arbitragem em protagonista da partida. Reclamou intensamente, recebeu cartão amarelo, entrou no campo em diferentes momentos e chutou um microfone de transmissão. O episódio será objeto de denúncia da Procuradoria do STJD, segundo informações publicadas pela imprensa. (no Portal UOL)E há um detalhe importante: não foi a primeira vez que Abel chutou um microfone. Um XILIQUENTO! Em julho de 2025, depois de uma vitória do Palmeiras sobre o Grêmio, outra câmera registrou o treinador acertando um equipamento de transmissão antes de seguir para o vestiário. Então cabe uma pergunta muito simples: por quê? Para mim, um mimado! O microfone tem culpa da arbitragem? O profissional que colocou aquele equipamento no gramado tem alguma responsabilidade pelo resultado do Palmeiras?É justamente aí que a intensidade deixa de ser uma justificativa aceitável.Quando tudo vira culpa dos outrosOutro ponto que chama atenção é a dificuldade que Abel demonstra, especialmente nos momentos ruins, em simplesmente admitir que seu time jogou mal, que sua estratégia não funcionou ou que o adversário foi melhor. Como se ele nunca fosse culpado da derrota, ele nunca escolhe errado...É arbitragem. É calendário. É gramado. É preparação física. São decisões externas.Após o empate diante do Mirassol, novamente a arbitragem ocupou grande parte de suas declarações, enquanto ele também cobrou individualmente jogadores de seu próprio elenco. Veja o que falou de Vitor Roque na entrevista coletiva. Se ele acha que o jogador esta fora de forma, porque escalou? Porque fritá-lo assim?É evidente que árbitros erram. Jornalistas erram. Jogadores erram. Federações erram.Mas técnicos também erram. Ainda mais esse técnico que demonstra ser uma pessoa arrogante.E liderança significa, principalmente nos momentos difíceis, assumir responsabilidades.É muito fácil ser elegante depois de uma vitória por 3 a 0. O verdadeiro teste de equilíbrio está justamente na derrota, no empate inesperado e na decisão da arbitragem com a qual você não concorda. E a relação com os jornalistas?A imprensa também virou alvo frequente.

Recentemente, em agosto de 2026, Abel voltou a atacar parte do jornalismo brasileiro, afirmando que existem profissionais que, segundo ele, “intoxicam o futebol brasileiro” e chegando a dizer que poderia citar nomes publicamente.  matéria na CNN BrasilNão é a primeira vez.Em 2024, ao ser perguntado pela jornalista Alinne Fanelli sobre a situação física de Mayke, Abel respondeu de maneira tão desproporcional que posteriormente telefonou para a profissional e pediu desculpas publicamente, reconhecendo que havia sido hostil. O pedido de desculpas foi correto e precisa ser reconhecido.Mas quando episódios semelhantes se repetem, deixa de ser suficiente analisar cada situação individualmente.Existe um padrão de comportamento que merece ser discutido.E existe um limiteEm 2024, Abel também foi expulso depois de um gesto considerado obsceno pela arbitragem durante Palmeiras x Flamengo. A súmula de Anderson Daronco registrou o episódio como um gesto ofensivo relacionado às decisões da arbitragem. Abel posteriormente contestou a interpretação sobre para quem o gesto havia sido dirigido. Independentemente da discussão sobre a intenção daquele gesto específico, permanece a questão maior:Esse é o comportamento que se espera de um dos técnicos mais importantes do futebol brasileiro?Um treinador ocupa uma posição de liderança. É observado por jogadores, crianças, torcedores e milhões de pessoas.Existe uma responsabilidade que acompanha o cargo.O Brasil não deve gratidão a Abel. E Abel também não deveria esquecer o que encontrou aqui.Há outro aspecto que me incomoda particularmente.Abel tem todo o direito de criticar a arbitragem brasileira, nosso calendário, dirigentes e jornalistas. Assim como qualquer profissional brasileiro pode fazê-lo.O problema começa quando a crítica parece vir acompanhada de uma postura de superioridade permanente.Porque convém lembrar uma coisa: foi o futebol brasileiro que transformou Abel Ferreira em um treinador mundialmente conhecido e multicampeão.O próprio Abel já afirmou que foi no Brasil que conquistou seus primeiros títulos como treinador. Antes do Palmeiras, passou por Braga e PAOK, mas foi aqui que sua carreira mudou de patamar. Portanto, crítica? Claro.Desrespeito? Não.A nacionalidade dele pouco importa. Poderia ser português, brasileiro, argentino ou de qualquer outro país. A regra deveria ser a mesma.Competência não significa superioridade moralTalvez esse seja o ponto central de toda essa discussão.Abel Ferreira é um excelente treinador.Possivelmente um dos maiores que passaram pelo futebol brasileiro nas últimas décadas.Mas seus 11 títulos pelo Palmeiras não lhe dão 11 autorizações para desrespeitar alguém.Competência profissional não é salvo-conduto para arrogância.Ganhar Libertadores não torna ninguém maior do que um jornalista.Ganhar Brasileiro não coloca ninguém acima de um árbitro.Ser campeão não dá direito de chutar equipamento de profissionais que estão apenas trabalhando.E muito menos transforma qualquer pessoa em dona da verdade.O Palmeiras tem todo o direito de defender seu treinador quando considera que ele foi injustiçado. Mas também seria saudável que o próprio clube, internamente, estabelecesse limites. Afinal, proteger um profissional não significa necessariamente concordar com tudo o que ele faz.Abel Ferreira construiu uma história gigantesca no Palmeiras.Justamente por isso deveria compreender o tamanho do exemplo que representa.Cabeça fria e coração quente, expressão que ele próprio transformou em marca, talvez precise valer principalmente quando o resultado não vem.Porque é muito fácil demonstrar educação quando se ganha.O caráter esportivo aparece mesmo quando se perde.E fica a pergunta para quem acompanha futebol, independentemente de ser palmeirense, flamenguista, corintiano ou torcedor de qualquer outro clube:até onde a competência e os títulos devem fazer o futebol brasileiro tolerar comportamentos que não toleraria de outras pessoas?E você, o que acha: Abel Ferreira é apenas um técnico intenso ou já ultrapassou há muito tempo a linha entre intensidade e falta de respeito?