Para milhares de moradores de comunidades ribeirinhas da Amazônia, votar exige enfrentar longas viagens de barco, custos com combustível e dificuldades de deslocamento. Com o segundo turno das eleições de 2026 marcado para domingo (25), a realidade dessas populações evidencia os desafios para garantir o acesso às urnas em uma das regiões mais extensas do Brasil.

Segundo o Ministério de Portos e Aeroportos, aproximadamente 4 mil seções eleitorais do Amazonas dependem exclusivamente do transporte fluvial. No Pará, mais de 400 mil eleitores ribeirinhos estão aptos a votar neste ano. Em algumas localidades, o deslocamento pode levar horas ou até dias.

Distâncias e condições dos rios dificultam o acesso

Na Amazônia, os rios funcionam como as principais vias de transporte para muitas comunidades. Entretanto, durante os períodos de estiagem, a redução do nível das águas dificulta a navegação, especialmente de embarcações maiores.

Além das condições naturais, o custo do combustível e a disponibilidade limitada de barcos representam obstáculos para os moradores. Em localidades sem seções eleitorais próximas, essas dificuldades podem impedir que eleitores consigam chegar aos pontos de votação.

O problema também afeta a distribuição das urnas eletrônicas. Em 2026, uma operação da Justiça Eleitoral transportou 467 equipamentos de Manaus para municípios do interior do Amazonas. O percurso mais longo, até Tabatinga, ultrapassa 1,5 mil quilômetros e pode durar aproximadamente sete dias.

Comunidades relatam dificuldades para votar

No dia 20 de outubro, a Defensoria Pública do Amazonas informou ter recebido solicitações de comunidades indígenas, ribeirinhas e extrativistas sobre dificuldades de deslocamento para o segundo turno.

Entre as localidades mencionadas estão comunidades ribeirinhas do rio Purus, em Lábrea, e moradores da comunidade Tabuleiro, em Carauari. Também foram registradas demandas de populações da Floresta Nacional de Tefé e da Reserva Extrativista Baixo Rio Juruá.

Diante da situação, a instituição solicitou à Justiça Eleitoral medidas para viabilizar embarcações, combustível e rotas seguras de transporte.

O que diz a legislação eleitoral?

A Lei nº 6.091, de 1974, prevê o fornecimento de transporte gratuito para eleitores residentes em zonas rurais, conforme as condições estabelecidas pela legislação.

As normas eleitorais de 2026 também asseguram medidas de transporte para populações indígenas, quilombolas e outras comunidades tradicionais, levando em consideração as particularidades desses territórios.

Na quinta-feira (22), o Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas (TRE-AM) determinou o encaminhamento de orientações aos juízes eleitorais para que adotem providências destinadas a viabilizar o transporte gratuito no segundo turno. A medida prevê articulação com gestores públicos e lideranças das comunidades, respeitando as condições logísticas de cada região.

Aproximar as urnas das comunidades é uma das soluções

Uma das alternativas adotadas pela Justiça Eleitoral é instalar seções de votação mais próximas das populações isoladas.

Em abril de 2026, o Ministério Público Federal anunciou a criação de duas novas seções eleitorais em comunidades de Jutaí, no Amazonas. A medida foi tomada após relatos de moradores que enfrentavam dificuldades para chegar à zona urbana, especialmente durante períodos de seca severa.

A instalação desses pontos busca reduzir a necessidade de grandes deslocamentos e facilitar a participação de indígenas e ribeirinhos.

Apesar das iniciativas, a distância geográfica e as limitações de infraestrutura continuam representando desafios. Para parte da população amazônica, exercer o direito ao voto ainda depende de uma complexa combinação de transporte, planejamento e condições favoráveis de navegação.