O despejo de Maricarmen Abascal, de 87 anos, do apartamento onde viveu por mais de sete décadas transformou uma disputa imobiliária em símbolo da crise habitacional enfrentada pela Espanha. Dias depois de a idosa ser retirada do imóvel, milhares de pessoas ocuparam as ruas de Madri em protesto contra os altos preços dos aluguéis e a falta de moradias acessíveis.

Sete décadas no mesmo apartamento

Maricarmen vivia no bairro de Retiro, uma das regiões valorizadas da capital espanhola. Após uma disputa judicial pela continuidade do contrato, uma ordem determinou sua saída do imóvel. Em 23 de setembro, ela foi retirada em uma maca enquanto manifestantes tentavam impedir o cumprimento da decisão. As imagens repercutiram em todo o país.

O episódio ganhou força porque encontrou uma Espanha já pressionada pelo mercado imobiliário. Segundo dados citados pela Reuters, o país enfrenta um déficit estimado em cerca de 750 mil moradias, enquanto os aluguéis médios praticamente dobraram na última década.

Falta de oferta pressiona preços

A escassez de imóveis é uma das principais razões para a pressão sobre os preços. Entre 2022 e 2024, cerca de 604 mil novos domicílios foram formados na Espanha, enquanto o número de licenças para novas construções ficou em aproximadamente 345 mil, segundo a OCDE.

O problema, porém, não se limita ao território espanhol. Nos últimos dez anos, os preços das casas subiram mais de 60% na União Europeia, enquanto os aluguéis avançaram mais de 20%.

Em grandes cidades, o crescimento populacional, o turismo, os altos custos da construção e a baixa oferta de imóveis ampliaram a disputa por moradia. Em 2025, cerca de 7,7% da população da União Europeia gastava 40% ou mais da renda disponível com habitação.

Crise atravessa o continente

Espanha, Portugal, Irlanda e Grécia estão entre os países que enfrentam forte pressão no mercado residencial, embora as causas e a intensidade variem.

O caso de Maricarmen também reforçou o debate sobre a presença de fundos e grandes investidores no setor imobiliário. Para movimentos de inquilinos, a expansão desses agentes aumenta a pressão sobre moradores de baixa renda. Especialistas, porém, apontam que a crise é resultado de uma combinação mais ampla de fatores, como falta de construção, aumento da demanda e concentração econômica nas grandes cidades.

Europa tenta reagir

Diante do avanço do problema, a União Europeia passou a ampliar sua atuação na área. A Comissão Europeia lançou medidas para estimular a construção de moradias acessíveis e estima que o bloco precise de mais de 2 milhões de novas unidades por ano para acompanhar a demanda.

O despejo de Maricarmen não explica sozinho a crise imobiliária europeia. Mas ajudou a transformar um problema tratado em gráficos e estatísticas em uma imagem concreta: a dificuldade crescente de permanecer nas cidades à medida que o preço da moradia avança mais rápido do que a renda.