Algumas músicas parecem resistir ao tempo. Mesmo décadas depois do lançamento, continuam presentes em festas, filmes, playlists e reuniões de família. Canções como "Evidências", de Chitãozinho & Xororó, e "Dancing Queen", do ABBA, são exemplos de sucessos que permanecem conhecidos por pessoas de diferentes idades. Mas o que faz uma música continuar popular enquanto tantas outras caem no esquecimento?
A resposta envolve uma combinação de fatores que vão da memória afetiva ao funcionamento do cérebro. Pesquisas na área da psicologia musical indicam que determinadas canções criam vínculos emocionais duradouros, enquanto a convivência familiar e a cultura popular ajudam a apresentá-las a novas gerações.
A relação entre música e memória afetiva
Uma música pode trazer lembranças de uma viagem, de um relacionamento ou de momentos da infância. Essa associação acontece porque a experiência musical está relacionada a processos cerebrais envolvidos na emoção e na memória autobiográfica.
Um estudo publicado em 2009 na revista científica Cerebral Cortex, conduzido pelo pesquisador Petr Janata, da Universidade da Califórnia, investigou como músicas conhecidas podem despertar lembranças pessoais.
A pesquisa identificou a participação do córtex pré-frontal medial, região cerebral associada à recuperação de informações autobiográficas, durante a experiência de ouvir músicas ligadas ao passado.
Outro estudo, publicado em 2025 na revista Memory, analisou respostas de 1.891 participantes de diferentes origens geográficas. Os resultados apontaram que a conexão emocional com músicas consideradas importantes pelos participantes atingiu seu pico, em média, em torno dos 17 anos.
O resultado ajuda a compreender por que canções ouvidas na adolescência e no início da vida adulta podem continuar significativas décadas depois.
Por que gostamos de ouvir a mesma música várias vezes?
A familiaridade também influencia as preferências musicais. Quanto maior o contato com determinada canção, maior pode ser a facilidade para reconhecer sua melodia, seu ritmo e sua estrutura.
Uma pesquisa publicada em 2017 na revista Frontiers in Neuroscience investigou como a repetição interfere na avaliação de músicas desconhecidas.
Durante aproximadamente quatro semanas, os participantes ouviram diferentes trechos musicais repetidamente. Os resultados mostraram que a preferência pelas músicas aumentou com a exposição, independentemente da complexidade das composições.
Isso ajuda a explicar por que músicas presentes durante anos no rádio, na televisão e nas plataformas digitais podem conquistar um espaço duradouro na memória dos ouvintes.
Entretanto, a repetição não garante que uma canção se torne um clássico. O contexto em que ela é ouvida e as experiências associadas também influenciam essa relação.
A influência da família na transmissão musical
O gosto musical não é formado exclusivamente pelas músicas lançadas durante a juventude. Muitas preferências começam dentro de casa, por influência dos pais, avós e outros familiares.
Em 2013, pesquisadores da Universidade Cornell, nos Estados Unidos, publicaram um estudo na revista Psychological Science sobre a transmissão de preferências musicais entre gerações.
Ao analisar as respostas de jovens adultos a sucessos de diferentes décadas, os pesquisadores observaram uma conexão significativa com músicas populares durante a juventude dos pais.
A descoberta sugere que a exposição às canções no ambiente familiar contribui para a construção do repertório musical das novas gerações.
É o que acontece quando um jovem aprende a gostar de artistas que nunca acompanhou durante o auge da carreira, mas cujas músicas estavam presentes em casa desde a infância.
No Brasil, "Evidências" exemplifica esse fenômeno. Gravada por Chitãozinho & Xororó em 1990, a composição de José Augusto e Paulo Sérgio Valle continua sendo cantada coletivamente em shows e eventos, mesmo por públicos que nasceram depois de seu lançamento.
Filmes, séries e redes sociais podem recuperar sucessos antigos
Além da memória afetiva, a exposição em novos contextos culturais ajuda determinadas músicas a alcançar públicos mais jovens.
Um exemplo é "Running Up That Hill", lançada pela cantora britânica Kate Bush em 1985.
Em 2022, a música ganhou uma nova onda de popularidade após aparecer na quarta temporada da série Stranger Things, da Netflix. Naquele ano, a canção alcançou o primeiro lugar na parada britânica de singles, 37 anos depois de seu lançamento original.
O episódio mostrou como uma produção audiovisual pode transformar uma música conhecida por uma geração em uma descoberta para outra.
As redes sociais também participam desse processo. Trechos utilizados em vídeos, desafios e tendências podem despertar o interesse por canções antigas, estimulando novos ouvintes a procurar suas versões completas.
Assim, uma música pode ganhar significados diferentes ao longo do tempo, conforme passa a integrar novas experiências culturais.
O que transforma uma música em um clássico?
Não existe uma fórmula capaz de determinar quais canções permanecerão populares durante décadas.
Elementos como melodias reconhecíveis, letras que abordam experiências humanas e interpretações marcantes podem contribuir para a identificação do público. No entanto, a permanência de uma música também depende de sua circulação e da maneira como ela é incorporada à vida das pessoas.
Canções sobre amor, saudade, esperança e despedidas encontram espaço em diferentes momentos e contextos. Mesmo quando os estilos musicais mudam, esses assuntos continuam presentes nas experiências dos ouvintes.
A música também pode adquirir novos sentidos a cada geração. Uma composição que marcou a juventude dos pais pode se tornar a trilha sonora de uma celebração dos filhos, por exemplo.
Por isso, atravessar gerações não significa necessariamente permanecer popular da mesma maneira durante todo o tempo. Muitas canções são redescobertas, reinterpretadas e compartilhadas em circunstâncias diferentes.
Enquanto novos sucessos surgem constantemente, algumas músicas continuam encontrando ouvintes dispostos a criar suas próprias histórias com elas.

