Com 12 anos de sacerdócio e uma presença cada vez mais próxima dos casais, especialmente em cerimônias realizadas no Rio de Janeiro e no Santuário Cristo Redentor, o sacerdote defende que o matrimônio começa muito antes da festa e deixa um conselho aos noivos: “Preparem a festa, mas não se esqueçam de preparar o coração.”
Por trás de uma cerimônia de casamento existem flores, música, vestido, fotografia, convidados e uma longa preparação. Para o Padre Victor Hugo, no entanto, tudo isso encontra seu verdadeiro sentido quando duas pessoas compreendem o compromisso que estão assumindo diante de Deus.
Com 12 anos de sacerdócio e 27 anos desde que ingressou no seminário para iniciar sua formação, Padre Victor Hugo tem celebrado casamentos em diferentes igrejas do Rio de Janeiro, com presença frequente também no Santuário Cristo Redentor.
Padre Victor Hugo conduz cerimônia com vista para as montanhas no Cristo | Foto: Sergio Ronaldo
Ao longo dos anos, o contato com os noivos acabou se transformando em uma parte especialmente significativa de seu ministério.
Sua vocação começou cedo. Aos nove anos, Victor Hugo já se sentia encantado pela liturgia. Aos 13, quando passou a estudar no Colégio Salesiano, esse interesse ganhou força e começou a se transformar no desejo de dedicar sua vida a Deus e à Igreja.
O apoio da família foi importante durante o processo. Seus pais, que inicialmente não tinham uma participação tão presente na vida religiosa, também acabaram se aproximando da Igreja depois de sua entrada no seminário. Buscaram os sacramentos e posteriormente se casaram religiosamente.
Para o padre, foi um processo de conversão vivido não apenas individualmente, mas dentro da própria família.
Professor de formação, Victor Hugo sempre gostou de cantar, ensinar e explicar. Com o tempo, percebeu que características que já faziam parte de sua personalidade encontraram também um espaço natural dentro do sacerdócio.
“Hoje, compreendo que Deus foi utilizando aquilo que eu já trazia em mim para construir minha missão”, afirma.
Celebrar para viver
Dentro dessa missão, os casamentos ganharam uma importância especial. Padre Victor Hugo explica que a vida dos padres diocesanos é marcada por uma espiritualidade profundamente ligada aos sacramentos.
“Gosto de dizer que vivemos para celebrar e celebramos para viver.”
Segundo ele, os sete sacramentos representam manifestações especiais do amor de Deus ao longo da vida. No matrimônio, essa dimensão aparece de maneira muito clara.
O casal manifesta um amor humano que, dentro da compreensão católica, se abre também à graça divina. Pelo sacramento, marido e mulher são chamados a viver um amor total, fiel e generoso.
Victor Hugo lembra que suas primeiras celebrações de casamento foram especialmente marcantes. Ver uma nova família começando diante do altar e poder abençoar aquele momento despertou nele uma identificação cada vez maior com os casais.

Padre Victor Hugo e os noivos durante a celebração | Foto: Reprodução
Com o passar dos anos, os próprios noivos começaram a comentar sobre sua maneira de conduzir as cerimônias. Paciência, diálogo, leveza e disponibilidade para acompanhar os casais antes, durante e depois do casamento passaram a ser características associadas ao seu trabalho pastoral.
Para ele, essa relação não termina quando a cerimônia chega ao fim.
“Quando um casal se casa, nasce também uma relação espiritual. Eles se tornam, de algum modo, meus filhos espirituais, e estaremos sempre unidos pela graça daquele sacramento.”
Participar desse início de vida é justamente uma das partes que mais valoriza em seu ministério.
O que ainda emociona depois de tantos casamentos
Mesmo depois de inúmeras cerimônias, Victor Hugo garante que a emoção permanece.
Um verso de Jorge Vercillo costuma vir à sua memória quando observa a entrada dos noivos na igreja: “Eu guardei o meu tempo de vida pra mais ninguém!”
Os olhos dos casais, segundo ele, ainda são capazes de traduzir algo que nenhuma produção consegue criar. Alegria, expectativa, nervosismo e amor aparecem naquele instante.
“Quando vejo os olhos dos noivos brilhando, penso: é isso. Foi para isso que eu vim.”

Padre Victor Hugo acompanha troca de alianças durante cerimônia | Foto: Reprodução
Cada casal, observa o sacerdote, chega ao altar carregando uma história diferente. Alguns viveram encontros inesperados. Outros atravessaram períodos de espera, dificuldades, recomeços ou precisaram superar muitos obstáculos até chegar ao casamento.
É justamente essa trajetória que faz com que cada celebração seja única.
“Celebrar um casamento é testemunhar o nascimento de uma aliança. E isso nunca deixa de me emocionar.”
Muito mais do que dizer “sim”
Para a Igreja Católica, o matrimônio representa uma aliança de amor e de vida na qual um homem e uma mulher se entregam livremente um ao outro e assumem o compromisso de construir uma comunhão para toda a vida.
Victor Hugo destaca que esse amor não pode ser compreendido apenas como sentimento. Há decisão, responsabilidade e entrega.
Amar, na visão do sacerdote, significa escolher o outro diariamente, cultivar confiança, aprender a crescer juntos e permanecer fiel mesmo diante das dificuldades que inevitavelmente fazem parte de qualquer relação.
No sacramento, esse amor humano ganha uma dimensão espiritual. O casal passa a ser chamado a representar o amor de Cristo pela Igreja, entendido como total, fiel, fecundo e capaz de se entregar.
Por isso, existe muito mais por trás do “sim” pronunciado diante do altar do que uma promessa romântica.
“Existe uma aliança, uma vocação e o desejo de caminhar juntos diante de Deus.”

Casal se ajoelha diante do altar durante bênção matrimonial | Foto: Divulgação
Quando a cerimônia não pode virar apenas mais um item da festa
O mercado de casamentos se transformou nas últimas décadas. Produções cresceram, experiências ficaram mais sofisticadas e elementos como decoração, gastronomia, vestido, fotografia e entretenimento passaram a receber enorme atenção dos casais.
Padre Victor Hugo não vê problema nessa valorização da celebração. Para ele, todos esses elementos fazem parte da alegria do casamento.
O ponto de atenção surge quando a cerimônia religiosa passa a ser tratada apenas como mais uma etapa do cronograma.
“O casamento não começa na festa. Ele começa na decisão de duas pessoas que desejam construir uma vida juntas diante de Deus.”
Por isso, ele defende que a preparação espiritual tenha espaço durante os meses que antecedem o casamento.
Conversar sobre fé, sobre o compromisso que será assumido e compreender verdadeiramente o significado daquele “sim” deveria fazer parte da preparação tanto quanto escolher fornecedores ou definir detalhes da recepção.
“A cerimônia religiosa não é apenas um cenário bonito para as fotografias. É o momento em que o casal, diante de Deus e da comunidade, manifesta sua aliança e recebe a graça do sacramento.”

Padre Victor Hugo celebra união de casal diante do altar | Foto: Reprodução
E deixa aos noivos uma reflexão simples.
“Preparem a festa, cuidem dos detalhes, vivam toda a beleza desse dia. Mas não se esqueçam de preparar o coração.”
Porque, como lembra o sacerdote, as flores vão murchar, a música vai terminar e as fotografias permanecerão como memória. O que seguirá depois daquele dia será a relação construída pelo casal.
Compromisso em tempos de relações rápidas
Ao falar sobre os relacionamentos contemporâneos, Padre Victor Hugo cita o sociólogo Zygmunt Bauman e sua reflexão em Amor Líquido sobre a fragilidade dos vínculos na sociedade atual.
Em um tempo no qual muitas relações se tornam mais instáveis e desistir pode parecer a saída mais simples diante das dificuldades, palavras como compromisso, renúncia, diálogo, perdão e fé ganham ainda mais importância.
“O amor conjugal não pode depender apenas da emoção do momento. Ele precisa se transformar em uma decisão diária de cuidar, permanecer e construir.”
Na prática, cada uma dessas palavras ocupa um espaço dentro da relação. O compromisso ajuda a enfrentar as dificuldades. A renúncia ensina que amar também significa sair do próprio egoísmo. O diálogo permite compreender melhor quem está ao lado. O perdão cria a possibilidade de recomeçar.
E a fé, segundo Victor Hugo, recorda ao casal que ele não precisa enfrentar sozinho todos os desafios da vida.
O sacerdote cita ainda a Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios para lembrar de um amor capaz de crer, esperar, suportar e perdoar.
Ao mesmo tempo, faz uma ressalva importante. Amar não significa aceitar abusos, violência ou qualquer situação que destrua a dignidade de uma pessoa.
O verdadeiro amor também precisa estar ligado ao respeito, à responsabilidade e ao cuidado.
Quando esses elementos estão presentes, acredita, o casamento pode se transformar em uma verdadeira escola de amor e de santidade.
“Não tenham medo de amar”
Para os casais que estão prestes a subir ao altar, assim como para aqueles que já acumulam anos de vida em comum, Padre Victor Hugo deixa uma mensagem de coragem.
“Não tenham medo de amar. Não tenham medo de construir uma vida juntos.”
Ele recorda a passagem da Carta de São Paulo aos Romanos que afirma que “tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus”.
Isso não significa, ressalta, que a vida será sempre fácil. Significa compreender que a fé também pode estar presente nos momentos difíceis.
Outro conselho é construir boas referências ao redor da relação. Casais amigos, familiares e pessoas capazes de aconselhar, compartilhar experiências e rezar juntos podem formar uma rede importante ao longo da vida matrimonial.
“Ninguém precisa viver o matrimônio sozinho.”

Noivos acompanham celebração diante do altar em igreja
Há ainda um ponto que ele considera indispensável: conversar. Não permitir que orgulho, silêncio ou distância ocupem o lugar do diálogo.
Uma frase de Padre Zezinho resume a ideia que costuma transmitir aos casais: “Que ninguém vá dormir sem pedir ou sem dar seu perdão.”
E para aqueles que ainda estão organizando o casamento, Victor Hugo deixa uma recomendação prática que também apresentou durante sua participação no último congresso da Inesquecível Casamento.
Antes de tomar decisões e para evitar muitos estresses ao longo da preparação, converse com o padre.
Conhecer as regras, tirar dúvidas, compreender o sacramento e conversar sobre o que significa assumir uma vida a dois diante de Deus pode tornar todo o processo mais consciente e tranquilo.
Para Victor Hugo, apesar dos desafios, o casamento continua sendo uma das experiências mais bonitas que duas pessoas podem escolher viver.
“O casamento é uma das aventuras mais bonitas da vida. E, quando vivido com amor, fé, diálogo e compromisso, torna-se também um caminho de santificação.”
E encerra com aquilo que talvez sintetize melhor sua relação com os casais que encontra diante do altar:
“Que Deus abençoe todos os casais e que nunca falte amor em seus lares.”
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