Pacientes em tratamento contra o câncer aparecem no centro de investigações sobre fraudes envolvendo medicamentos de alto custo em diferentes regiões do Brasil. Uma reportagem exibida pelo Fantástico neste domingo (20) reuniu casos de suspeita de falsificação, fornecimento de produtos sem registro sanitário, superfaturamento e irregularidades em processos de compra pagos com recursos públicos.

Um dos principais casos está no Rio Grande do Sul. A Operação Placebo, deflagrada pela Polícia Civil em 29 de junho, cumpriu 57 mandados de busca e apreensão no estado e em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Goiás. A investigação apura uma possível organização voltada a fraudar o fornecimento de medicamentos oncológicos obtidos por meio de decisões judiciais.

Cartela de comprimidos ilustra o uso de medicamentos em tratamentos de saúde | Foto: Fantástico

A apuração começou depois que uma farmacêutica da Santa Casa de São Gabriel percebeu diferenças em embalagens de um medicamento utilizado no tratamento do câncer de mama. Erros de grafia, alterações de cor e outros detalhes levantaram suspeitas sobre a procedência do lote. O fabricante foi consultado e informou que as unidades analisadas não correspondiam aos produtos legítimos distribuídos por sua cadeia homologada.

Segundo a Polícia Civil, 39 pacientes foram identificados como possíveis vítimas. Sete deles morreram durante o período de tratamento, mas as autoridades não estabeleceram relação entre essas mortes e os medicamentos investigados. A perícia sobre parte do material apreendido ainda estava pendente quando a reportagem foi exibida.

Justiça teria sido usada para direcionar compras

As suspeitas, porém, não ficam restritas à possível adulteração dos remédios. De acordo com a investigação gaúcha, pacientes que necessitavam de medicamentos de alto custo eram orientados a recorrer à Justiça para obrigar o poder público a financiar o tratamento. Em seguida, empresas relacionadas entre si teriam apresentado diferentes orçamentos, simulando uma concorrência para direcionar a compra e elevar os valores pagos.

A polícia investiga a participação de empresários, profissionais da saúde e advogados nesse processo. Um empresário apontado como um dos principais investigados foi preso durante a operação e nega envolvimento nos crimes. A defesa de um médico também citado na investigação afirmou que ele não praticou conduta ilícita e permanece à disposição da Justiça.

Um episódio investigado no Paraná mostra o impacto que esse tipo de fraude pode alcançar. Em Cascavel, recursos públicos destinados ao tratamento de uma menina de 12 anos com neuroblastoma teriam sido desviados, e apenas parte da medicação adquirida judicialmente foi entregue. Aproximadamente R$ 2,5 milhões estavam envolvidos na compra. Dois empresários foram posteriormente condenados por estelionato. A menina morreu em fevereiro, sem que a reportagem estabeleça relação causal entre a morte e a fraude investigada.

Investigação em Mato Grosso do Sul aponta superfaturamento

Outro caso é apurado em Mato Grosso do Sul. Após cerca de dez meses de investigação, a Polícia Civil identificou um esquema que, segundo as autoridades, utilizava ações judiciais para desviar recursos destinados à compra de medicamentos contra o câncer. Há suspeita de que alguns pacientes tenham recebido produtos sem rastreabilidade, número de lote ou registro na Anvisa.

A investigação apontou ainda diferenças expressivas entre o custo dos medicamentos e os valores apresentados nos processos. Segundo dados exibidos pelo Fantástico, empresas relacionadas à investigação tiveram faturamento superior a R$ 70 milhões entre 2021 e 2025. Em determinados casos, taxas cobradas no processo de aquisição poderiam consumir a maior parte do dinheiro liberado judicialmente.

Casos de medicamentos oncológicos de procedência irregular também chegaram ao Ceará. Em uma operação realizada em 2025, a Anvisa encontrou produtos sem registro no Brasil em uma distribuidora, incluindo unidades de Keytruda, usado em diferentes tratamentos contra o câncer. A agência apontou suspeita de falsificação internacional e interditou o estabelecimento durante a investigação. Controle sobre medicamentos oncológicos ganha novas regras

Enquanto as investigações avançam, o Ministério da Saúde regulamentou neste mês novas regras para a assistência farmacêutica em oncologia no SUS. O modelo prevê, entre outras medidas, compra centralizada de medicamentos de altíssimo custo, acompanhamento de estoques e gastos e registro específico da dispensação e administração desses produtos.

As medidas não estão apresentadas pelo governo como consequência direta das investigações, mas ampliam mecanismos de acompanhamento da circulação e do uso de medicamentos oncológicos dentro do sistema público.

No Rio Grande do Sul, a investigação da Operação Placebo continua, assim como as apurações abertas em outros estados. Além do possível prejuízo aos cofres públicos, os casos colocam em evidência um risco mais grave: quando a procedência ou a entrega de um medicamento é comprometida, o impacto pode chegar diretamente a pacientes que dependem do tratamento para enfrentar uma doença já marcada pela urgência.