Reiner, morador de Lavras, no Sul de Minas Gerais, acaba de acrescentar uma nova conquista à trajetória de autonomia construída desde a infância. Nascido sem os dois braços, o jovem conseguiu obter a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) depois de aprender a conduzir um automóvel utilizando os pés.

O processo para conseguir a habilitação começou em 2025. Antes das aulas práticas, o rapaz passou por uma avaliação realizada por uma junta médica do Departamento de Trânsito (Detran), que estabeleceu as condições e adaptações necessárias para que ele pudesse dirigir.

A etapa seguinte, porém, trouxe outro desafio: encontrar uma autoescola que tivesse um veículo compatível com as adaptações determinadas na avaliação. Depois de procurar, o jovem encontrou a estrutura necessária em Pará de Minas, na região Central do estado.

Primeiras aulas trouxeram insegurança

Antes de entrar no carro adaptado pela primeira vez, Reiner tinha dúvidas se conseguiria realizar todos os movimentos necessários utilizando os pés. A preocupação, entretanto, deu lugar à confiança logo durante a primeira aula.

Com o treinamento, ele foi se familiarizando com os comandos e desenvolvendo a maneira mais adequada de controlar o veículo. O exame prático aconteceu no dia 5 de agosto, quando o jovem foi aprovado.

A confirmação da aprovação se transformou em um momento de grande emoção. Reiner contou que chorou ao receber o documento que confirmava o resultado positivo.

Autonomia construída desde a infância

A conquista da CNH representa mais uma etapa de uma trajetória marcada pela busca por independência. Natural de Juatuba, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, Reiner foi incentivado pela família desde criança a encontrar maneiras próprias de realizar as atividades do dia a dia.

Ao longo da infância, ele passou por diferentes acompanhamentos e terapias, além de atendimentos em instituições especializadas. Com o tempo, aprendeu a escrever, comer, escovar os dentes e se vestir utilizando principalmente os pés. Em determinadas situações, também recorre à boca, ao queixo e ao tronco.

A adaptação fez com que os pés se tornassem fundamentais para sua rotina. A família, segundo o jovem, teve papel importante nesse processo ao estimular sua independência em vez de limitar suas atividades por causa da deficiência.

Até uma bicicleta foi adaptada para ele

A relação de Reiner com veículos adaptados começou muito antes da habilitação. Durante a infância, um dos padrinhos construiu uma bicicleta especialmente para ele.

O equipamento não tinha o guidão convencional e foi desenvolvido para que o menino pudesse conduzi-lo utilizando o tronco. A bicicleta continua guardada pela família.

A experiência ajudou a ampliar as possibilidades de mobilidade do jovem e se tornou uma das primeiras experiências dele com um veículo adaptado.

Estudante de Agronomia, Reiner também mora sozinho

A independência conquistada ao longo dos anos também aparece em outras áreas da vida. Atualmente, Reiner mora sozinho em Lavras e cursa Agronomia na Universidade Federal de Lavras (UFLA).

O interesse pela área surgiu ainda na infância, influenciado pelo pai, que trabalha com produção de leite. Antes de ingressar na universidade, Reiner fez um curso técnico em Agropecuária na Universidade Federal de Viçosa (UFV).

Na universidade, ele segue o curso com algumas adaptações necessárias para acompanhar as atividades. Em aulas práticas que envolvem tarefas que não consegue executar da mesma maneira que os demais estudantes, busca outras formas de participar e compreender os procedimentos.

Jovem compartilha rotina nas redes sociais

A história de Reiner também ganhou espaço nas redes sociais. Ele publica vídeos mostrando atividades do cotidiano e como encontrou maneiras de realizar diferentes tarefas utilizando os pés.

Os conteúdos alcançaram milhões de visualizações e fizeram com que o jovem recebesse mensagens de pessoas que se identificaram com sua trajetória.

Além das redes sociais, Reiner também participa de palestras para estudantes e outros públicos, compartilhando experiências sobre autonomia, inclusão e convivência com a deficiência.

Acessibilidade ainda é um desafio

Apesar da conquista da CNH, Reiner chama atenção para as dificuldades enfrentadas por pessoas com deficiência durante o processo de habilitação. Para ele, a disponibilidade de veículos adaptados, o acesso à informação e a preparação dos profissionais são pontos que ainda precisam avançar.

No caso do jovem, a necessidade de buscar uma autoescola em outro município mostra uma das barreiras encontradas durante o processo.

A conquista da carteira, portanto, representa não apenas a possibilidade de dirigir, mas também mais um passo na trajetória de independência que Reiner vem construindo desde a infância.