O Brasil já tem seu representante na corrida pelo Oscar 2027. A Academia Brasileira de Cinema anunciou, em 16 de setembro, a escolha de “Feito Pipa”, dirigido por Allan Deberton, para disputar uma vaga na categoria de Melhor Filme Internacional. O longa foi selecionado entre 15 produções brasileiras inscritas e chegou à etapa final ao lado de outros cinco títulos.
A escolha, porém, ainda não significa uma indicação ao Oscar. “Feito Pipa” será submetido à Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, responsável pelas próximas etapas da seleção. Os indicados à premiação serão conhecidos em 21 de janeiro de 2027.
Com Yuri Gomes, Teca Pereira e Lázaro Ramos no elenco principal, o filme acompanha Gugu, um menino de quase 12 anos criado pela avó Dilma, uma professora aposentada. No sertão do Ceará, ele cresce cercado por afeto e com liberdade para descobrir seus próprios interesses e formas de expressão.
Apaixonado por futebol, Gugu também dança, brinca com maquiagem e encontra diferentes maneiras de manifestar sua personalidade. Essa liberdade entra em conflito com Batista, seu pai ausente, interpretado por Lázaro Ramos, que demonstra dificuldade em aceitar características do filho que escapam de suas próprias expectativas sobre masculinidade.
A relação entre avó e neto ganha outra dimensão quando Dilma começa a apresentar sinais de Alzheimer. Com medo de ser afastado dela e obrigado a morar com o pai, Gugu tenta esconder a situação. A partir daí, o filme aproxima questões aparentemente distintas, como envelhecimento, abandono, infância, preconceito, pertencimento e relações familiares.
Rodado em Quixadá, no sertão cearense, “Feito Pipa” escolhe esse território não apenas como cenário. A paisagem faz parte de uma história profundamente ligada às experiências de seus personagens e às diferentes formas de viver a infância no interior do país.

Fonte: Divulgação/Paris Filmes
Que Brasil “Feito Pipa” leva ao Oscar?
Talvez esteja justamente aí um dos aspectos mais interessantes da escolha brasileira.
“Feito Pipa” chega à disputa internacional contando uma história localizada, mas atravessada por questões que ultrapassam Quixadá. Existe o medo de perder alguém, o conflito entre pais e filhos, o envelhecimento, a descoberta da própria identidade e a tentativa de caber dentro das expectativas impostas pelos outros.
Ao mesmo tempo, há uma identidade brasileira evidente. O filme coloca no centro da narrativa uma criança do sertão nordestino que gosta de futebol, dança, maquiagem e não deveria precisar escolher entre essas possibilidades para ser aceita.
É um protagonista que desafia uma ideia rígida de masculinidade sem transformar sua existência em um discurso. O próprio Allan Deberton já explicou que a intenção do filme passa menos por definir Gugu e mais por permitir que aquela criança exista livremente, sem ser constantemente corrigida pelo olhar dos outros.
Essa escolha ganha ainda mais significado em um momento no qual uma produção brasileira passa a representar o país diante de uma das maiores vitrines do cinema mundial. O Brasil apresentado por “Feito Pipa” não cabe em uma única imagem. É sertão e futebol, mas também dança, maquiagem, afeto, conflito familiar, conservadorismo e liberdade.
Representar um país no Oscar nunca significa resumir toda a sua identidade em pouco mais de uma hora de filme. Nenhuma produção conseguiria fazer isso. Mas significa escolher qual história brasileira receberá uma oportunidade especialmente ampla de circular pelo mundo.
E, nesse sentido, há algo relevante em colocar no centro dessa escolha uma criança que simplesmente reivindica o direito de existir como é.
Uma trajetória que começou antes do Oscar
“Feito Pipa” não chega à disputa sem bagagem internacional. O longa teve sua première mundial no Festival de Berlim, onde conquistou o Urso de Cristal de Melhor Filme e o Grande Prêmio do Júri Internacional da mostra Generation Kplus. Depois, tornou-se o longa mais premiado da edição de 2026 do Festival de Cinema de Gramado, conquistando quatro Kikitos e uma menção honrosa para Yuri Gomes.
Agora, a seleção brasileira abre um novo capítulo dessa trajetória. Antes de descobrir até onde “Feito Pipa” conseguirá chegar na corrida pelo Oscar, o público brasileiro poderá conhecer a história nos cinemas. O lançamento nacional está marcado para 5 de novembro de 2026, com distribuição da Paris Filmes.

