Às vezes ele sorri. Cumprimenta os vizinhos. É conhecido na comunidade. Parece um homem comum, é justamente aí que “Devil in Disguise: John Wayne Gacy”, disponível no Prime Video, encontra sua força.
A série parte da história real de John Wayne Gacy, um dos mais conhecidos assassinos em série dos Estados Unidos, mas o que me interessou nela não foi apenas descobrir como os crimes aconteceram. O mais assustador é acompanhar a construção daquela aparência de normalidade, e perceber quantas pessoas olharam para ele sem imaginar o que existia por trás daquela fachada. Gacy não aparece como um monstro desde o primeiro minuto. E talvez seja justamente isso que torne tudo tão incômodo. A série nos coloca diante de uma pergunta que vai ficando cada vez mais difícil de ignorar: quantas vezes confundimos uma pessoa socialmente agradável com uma pessoa verdadeiramente boa? A série olha para as vítimas. Para as famílias. Para os jovens que desapareceram. Para os investigadores. Para os erros, omissões e preconceitos que fizeram com que tantos sinais fossem ignorados.
Isso muda completamente a experiência.
Porque o true crime muitas vezes corre o risco de transformar o criminoso em protagonista absoluto. Aqui, existe uma tentativa mais interessante de olhar para o que ficou ao redor dele: as vidas interrompidas, as famílias destruídas e as perguntas que permanecem mesmo depois que o culpado é encontrado.
Eu achei uma série pesada. Em muitos momentos, desconfortável. E acho que ela precisa ser.
Não é uma história para assistir apenas pela curiosidade de saber “como ele fez”. É uma história sobre como alguém pode esconder uma identidade monstruosa atrás de uma vida aparentemente banal, e sobre como uma sociedade pode, por diferentes razões, demorar demais para enxergar o que está diante dos seus olhos. O que mais me marcou foi justamente essa sensação de que o perigo não estava escondido em algum lugar distante. Ele estava no meio da comunidade. Não é apenas sobre John Wayne Gacy, é sobre a nossa necessidade de acreditar que conseguimos reconhecer o mal. De imaginar que pessoas perigosas têm uma aparência perigosa, que existem sinais claros, que saberíamos identificar.
A série desmonta essa segurança.
E deixa uma sensação incômoda: algumas das histórias mais assustadoras não começam com um monstro. Começam com alguém que parece não ter absolutamente nada de ameaçador.
É uma minissérie difícil, mas necessária para quem gosta de true crime (eu adoro) não apenas pelo suspense, e sim pelas perguntas que permanecem depois que a história termina.
Porque o mais assustador em “Devil in Disguise” não é descobrir quem era Gacy. É perceber por quanto tempo ele conseguiu parecer outra pessoa.

