A bola subia a uma altura incomum, quase desaparecia do campo de visão dos jogadores e voltava em direção à quadra adversária. Nas arquibancadas, o público acompanhava a trajetória enquanto esperava o momento da recepção. Foi assim que o saque Jornada nas Estrelas se tornou uma das jogadas mais conhecidas da história do vôlei brasileiro.
O movimento ficou associado a Bernard Rajzman, integrante da seleção que conquistaria a medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 1984. Antes do reconhecimento internacional, porém, a jogada havia surgido em um ambiente bem diferente dos grandes ginásios: as praias do Rio de Janeiro.
A origem do saque está nas praias cariocas
Bernard começou a experimentar o saque ainda adolescente, por volta dos 14 ou 15 anos. Durante as partidas de vôlei na praia, percebeu que uma bola lançada muito alto poderia dificultar a recepção. O adversário precisava acompanhar sua trajetória contra a claridade do céu e, em determinados momentos, contra o sol.
A princípio, a jogada era tratada como brincadeira. Em depoimento ao Comitê Olímpico do Brasil (COB), o ex-atleta contou que jogadores mais experientes não levavam a técnica a sério. Ainda assim, continuou testando variações de força e direção, observando a influência do vento e da posição do sol.
A proposta era aparentemente simples: fazer a bola subir muito acima do padrão de um saque convencional. O resultado, porém, exigia precisão. A altura, o efeito e a velocidade da queda tornavam difícil calcular o ponto de chegada da bola.
A estreia em uma partida oficial aconteceu em 1981
Segundo o relato de Bernard ao COB, o Jornada nas Estrelas apareceu pela primeira vez em uma partida de quadra em 1981. Ele defendia a Atlântica Boavista na final do Campeonato Sul-Americano de Clubes, contra o Ferro Carril Oeste, da Argentina.
O técnico Bebeto de Freitas conhecia a jogada, mas não esperava vê-la em uma decisão. Bernard escolheu executá-la no terceiro set, quando sua equipe tinha vantagem no placar. O saque surpreendeu a recepção argentina, rendeu um ponto e marcou a entrada do movimento nas competições de ginásio.
Mesmo assim, a popularidade nacional ainda estava por vir. A oportunidade surgiu no ano seguinte, quando a seleção brasileira disputou um torneio diante de milhares de torcedores no Rio de Janeiro.
O Mundialito de 1982 transformou o saque em espetáculo
Em setembro de 1982, o Maracanãzinho recebeu o Mundialito de vôlei, competição que reuniu grandes seleções da modalidade. O ginásio oferecia uma condição essencial para o Jornada nas Estrelas: um teto suficientemente alto para permitir a trajetória da bola.
Na partida contra a Coreia, Bernard fez uma sequência de quatro pontos com o saque e ajudou a encerrar o confronto. Na decisão diante da União Soviética, então referência internacional, a jogada ganhou ainda maior destaque. Segundo reportagem do ge, o brasileiro marcou oito pontos com esse recurso na final.
O Brasil venceu os soviéticos por 3 sets a 2. Com transmissão televisiva e um Maracanãzinho lotado, a equipe passou a receber atenção de um público que ainda não acompanhava o vôlei com a mesma intensidade. O saque se tornou uma atração à parte, a ponto de os torcedores pedirem sua execução durante os jogos.
A história ganhou outro capítulo em 1983, em um amistoso contra a União Soviética realizado no Maracanã. Diante de cerca de 96 mil espectadores, Bernard voltou a usar a jogada em um dos eventos mais lembrados da expansão do vôlei nacional.
Por que o saque recebeu o nome Jornada nas Estrelas?
O nome faz referência à série de ficção científica Star Trek, conhecida no Brasil como Jornada nas Estrelas. A comparação veio da imagem produzida pelo movimento: após o golpe, a bola parecia viajar rumo ao alto do ginásio antes de retornar à quadra.
Tecnicamente, o saque dependia de uma combinação de força, altura e efeito. Os jogadores adversários precisavam identificar a bola no teto ou contra os refletores, ajustar sua posição e calcular a descida. A iluminação, que dificultava a visão, podia ampliar a vantagem de quem sacava.
Essa característica também impunha um limite. Em ginásios de teto baixo, o saque não tinha espaço para completar o percurso. Bernard e seus companheiros lembram que apenas algumas arenas brasileiras, como Maracanãzinho, Ibirapuera, Mineirinho e Gigantinho, permitiam a execução na altura desejada.
Por que o Jornada nas Estrelas deixou de ser utilizado?
Embora tenha marcado sua geração, o saque não se consolidou como padrão nas competições internacionais. A necessidade de ginásios muito altos restringia o uso, enquanto o vôlei passava por transformações físicas e táticas que favoreciam ações mais rápidas.
Uma curiosidade é que Bernard não executou o Jornada nas Estrelas nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 1984. A seleção brasileira conquistou a prata naquela edição, mas utilizou outros recursos de saque para enfrentar os adversários.
Entre eles estava o saque em suspensão, associado no Brasil ao nome Viagem ao Fundo do Mar. Diferentemente do Jornada, que explorava a altura da trajetória, o Viagem apostava no salto e na força do golpe para acelerar a bola em direção à quadra rival. A técnica se tornou parte do repertório do vôlei moderno.
Uma jogada que ajudou a popularizar o vôlei
O impacto do Jornada nas Estrelas ultrapassou os pontos marcados. O movimento se tornou um símbolo de um período em que as transmissões televisivas ampliavam a visibilidade do vôlei e aproximavam os jogadores do público.
Bernard participou de três Olimpíadas, em Montreal 1976, Moscou 1980 e Los Angeles 1984, e integrou a chamada Geração de Prata. O resultado de 1984 representou a primeira medalha olímpica do vôlei brasileiro. Sua trajetória foi reconhecida no Hall da Fama do COB e no Hall da Fama do voleibol internacional.
Décadas depois, o Jornada nas Estrelas permanece como exemplo de uma inovação que começou de maneira informal, foi adaptada à competição e ganhou significado histórico. A imagem da bola subindo acima dos jogadores continua associada à geração que ajudou a transformar a relação dos brasileiros com o esporte.

