Entre vestidos de cintura baixa, véus compridos e celebrações tradicionais, os casamentos dos Roaring Twenties acompanharam as transformações da moda e da sociedade. No Brasil, a influência europeia dividia espaço com os costumes religiosos e familiares.
Vestidos de seda, longos véus, buquês volumosos e fotografias cuidadosamente posadas. Há aproximadamente 100 anos, os casamentos apresentavam características que hoje parecem distantes, mas também preservavam tradições que continuam presentes nas celebrações contemporâneas. Na década de 1920, as mudanças no comportamento e na moda começaram a transformar a maneira como os casais celebravam a união.
Conhecido como Roaring Twenties, ou Anos Loucos, o período foi marcado por uma intensa transição cultural, especialmente nos Estados Unidos e na Europa. O crescimento do cinema, a popularização do jazz e a influência de movimentos artísticos como o Art Déco chegaram ao universo dos casamentos, trazendo novas possibilidades para os vestidos, os acessórios e as recepções.
Apesar dessas transformações, as cerimônias mantinham protocolos tradicionais, e a participação das famílias continuava sendo determinante. O resultado era uma combinação de formalidade e modernidade, que variava de acordo com o país, a classe social e as condições financeiras dos noivos.
Beatrice Beckett e Anthony Eden, futuro primeiro-ministro britânico, no dia de seu casamento, em 1923. | Foto: The Wedding Secret
Vestidos de noiva: a elegância e a liberdade dos anos 1920
A moda foi uma das mudanças mais visíveis nos casamentos da década. Depois da Primeira Guerra Mundial, os vestidos femininos passaram a apresentar modelagens mais simples, com tecidos leves, linhas retas e menos estruturas rígidas.
Nas roupas das noivas, essa transformação apareceu por meio de vestidos com cintura baixa, saias mais soltas e comprimentos variados. Embora os modelos longos continuassem presentes, algumas mulheres adotaram vestidos que terminam abaixo dos joelhos ou na altura das panturrilhas.
Segundo o Fashion History Timeline, do Fashion Institute of Technology, as saias femininas alcançaram seus comprimentos mais curtos por volta de 1926, antes de voltarem gradativamente a se alongar no final da década. Essa mudança também influenciou a moda nupcial.
Seda, cetim, chiffon, rendas e bordados delicados apareciam nas criações, muitas vezes acompanhados de pérolas, contas de vidro e aplicações brilhantes. O branco continuava associado às cerimônias tradicionais, mas havia noivas que escolhiam vestidos em tons de marfim, creme, rosa e até tecidos metalizados.
Os acessórios completam a produção. Véus compridos, presos por tiaras, rendas ou arranjos de flores, criaram um contraste com os vestidos mais curtos. Os penteados acompanhavam a moda da época, com cabelos presos ou cortes curtos, frequentemente modelados em ondas.
Os buquês também ganhavam destaque. Rosas, lírios, folhagens e fitas podiam formar arranjos generosos, que apareciam como elementos centrais nos retratos das noivas.

Foto de noiva com vestido típico da década de 20. I Foto: Autor desconhecido.

Cornelia Vanderbilt em seu casamento, em 1924. A noiva posa com um vestido de renda, véu longo e uma cauda volumosa, acompanhados por um buquê de flores em cascata, elementos que refletem a elegância da moda nupcial da década de 1920. I Foto: Biltmore Estate
Cerimônias tradicionais e a importância da família
Embora a moda estivesse mudando, as cerimônias religiosas continuavam cercadas de formalidade. Nos casamentos cristãos tradicionais, especialmente entre as famílias mais abastadas, a entrada da noiva era o momento de maior destaque.
O manual Etiquette, publicado pela escritora norte-americana Emily Post em 1922, descrevia uma organização bastante rigorosa para o cortejo. Padrinhos, madrinhas, damas de honra e crianças podiam participar da entrada, que terminava com a chegada da noiva acompanhada pelo pai.
Os vestidos das madrinhas também eram pensados para criar harmonia visual. A escolha de cores, tecidos e modelos ajudava a estabelecer uma unidade entre as participantes da cerimônia.
O casamento representava ainda um acontecimento social para as famílias. Entre os grupos economicamente privilegiados, a quantidade de convidados, a escolha do local e a organização da recepção contribuíam para demonstrar a importância da ocasião.
Os convites impressos seguiam regras de etiqueta, e os nomes dos pais frequentemente apareciam como responsáveis pela celebração. Esse protocolo, entretanto, estava associado sobretudo aos casamentos formais e não representava a realidade de todos os casais.

Madrinhas de casamento em pé, ao fundo. Daminhas de honra e pajem à frente. I Foto: Vintage Everyday

Retrato de um casamento da década de 1920, com os noivos ao centro, acompanhados por padrinhos, madrinhas e crianças. O grupo posa em estúdio, com trajes formais e grandes arranjos de flores. I Foto: Adore Vintage
Flores, Art Déco e as decorações das recepções
A decoração dos casamentos dos anos 1920 reunia referências tradicionais e tendências que começavam a ganhar espaço na arquitetura, no design e na moda.
Nas igrejas e nas residências, os arranjos florais tinham grande importância. Flores claras, plantas ornamentais e folhagens eram utilizadas para valorizar os ambientes, enquanto grandes composições podiam decorar os espaços destinados à recepção dos convidados.
Paralelamente, a estética Art Déco conquistava espaço nos ambientes sofisticados, especialmente na segunda metade da década. Linhas geométricas, materiais brilhantes, espelhos e detalhes metalizados influenciavam objetos decorativos, joias e elementos de design.
Preto, dourado e prata são frequentemente associados aos Anos Loucos, mas não constituíam uma paleta obrigatória para os casamentos. Muitas celebrações preservavam uma decoração romântica, com tecidos claros, flores e elementos mais tradicionais.
A ornamentação também dependia do orçamento. Enquanto algumas famílias organizavam grandes recepções, outras aproveitavam os ambientes domésticos e utilizavam os recursos disponíveis para preparar a comemoração.

Uma sofisticada composição de taças de coquetéis, dispostas em bandejas pretas de diferentes alturas, integra a decoração do evento. Na base, um arranjo floral com rosas brancas, flores em tons de vinho e folhagens verdes acrescenta cor e delicadeza à composição. I Foto: The Knot

Ambiente sofisticado que combina tijolos aparentes, lustres de cristal, sofás de veludo verde e detalhes dourados em uma atmosfera elegante e acolhedora. I Foto: Party Slate
Gastronomia, música e festas de casamento
Depois da cerimônia, as comemorações podiam assumir diferentes formatos. Recepções em residências particulares, almoços, chás e grandes festas estavam entre as possibilidades, dependendo do horário, dos costumes locais e da condição financeira das famílias.
Os cardápios variavam bastante, mas bolos, doces, sanduíches e refeições elaboradas faziam parte das diferentes formas de receber os convidados. Nas celebrações mais sofisticadas, os menus podiam incluir vários pratos e serviços organizados para a ocasião.
O bolo de casamento já ocupava um lugar importante. Modelos ornamentados, por vezes com vários andares, eram apresentados como um dos elementos de destaque da recepção. Em algumas tradições, pequenas lembranças ou amuletos eram incorporados ao bolo, enquanto porções podiam ser distribuídas aos convidados.
A música acompanhava as mudanças culturais da década. Nos Estados Unidos, o jazz, o foxtrote e o Charleston ganharam popularidade e passaram a integrar o repertório das festas urbanas. Danças mais tradicionais, como a valsa, continuaram presentes.
A fotografia também começou a ocupar um espaço crescente no mercado de casamentos. Os retratos formais ainda predominavam, mas os serviços fotográficos passaram a registrar diferentes momentos das celebrações.
De acordo com o Museu Nacional de História Americana, do Smithsonian, os anos 1920 marcaram a expansão dos casamentos cerimoniais e dos serviços especializados nos Estados Unidos. Departamentos dedicados às noivas, listas de presentes, fornecedores de flores, confeiteiros e profissionais de fotografia contribuíram para estruturar o mercado que conhecemos atualmente.
A lua de mel também fazia parte dos preparativos de muitos casais. As viagens podiam ser realizadas de trem, navio ou automóvel, e a noiva frequentemente trocava o vestido da cerimônia por uma roupa de viagem antes de deixar a recepção.

Recepção de casamento com decoração sofisticada inspirada na década de 1920, marcada por flores brancas, folhagens, plumas, velas e detalhes dourados, enquanto os noivos celebram ao centro do ambiente. I Foto: Party Slate
Retrato de um casamento da década de 1920, com os noivos ao centro, acompanhados por padrinhos, madrinhas e crianças. O grupo posa em estúdio, com trajes formais e grandes arranjos de flores. I Foto: Adore Vintage
Como eram os casamentos no Brasil na década de 1920?
Enquanto a moda internacional passava por transformações, os casamentos brasileiros conservavam uma forte ligação com as tradições religiosas e familiares. Nas principais cidades, como Rio de Janeiro, São Paulo e Curitiba, as famílias mais abastadas acompanhavam as tendências europeias, especialmente as francesas, que influenciavam vestidos, acessórios e costumes sociais.
A Igreja Católica continuava exercendo grande influência sobre as celebrações. Embora o casamento civil tenha sido instituído no Brasil em 1890, as cerimônias religiosas mantinham sua importância, principalmente entre as famílias católicas tradicionais.
Uma pesquisa publicada na revista científica Sociologia, Problemas e Práticas, sobre os costumes da elite paraense entre 1919 e 1921, mostra que os casamentos católicos eram frequentemente divulgados na imprensa. As celebrações reuniam famílias ligadas ao comércio, à produção rural e às atividades econômicas da região, e a quantidade de convidados era um indicativo do prestígio social dos envolvidos.
A moda das noivas brasileiras também acompanhava as mudanças internacionais. Vestidos brancos, véus e buquês continuavam presentes, mas modelos mais curtos e de cortes retos começaram a aparecer nos registros fotográficos da época.
Um exemplo é o casamento de Diva Roxo e Luis Carrasco Jiménez, realizado no Rio de Janeiro em 1920. Na fotografia feita após a cerimônia civil, na residência do médico Henrique Roxo, a noiva aparece com um vestido mais curto, véu comprido e buquê volumoso. O noivo usa um traje escuro, enquanto grandes arranjos florais decoram o ambiente.
Outro registro expressivo é o casamento de Flora Camargo e Bento Munhoz da Rocha Netto, realizado em Curitiba em 1929. A fotografia mostra o casal acompanhado por um grande grupo de madrinhas e crianças, com vestidos claros, buquês e uma composição cuidadosamente organizada.
Fora dos grandes centros urbanos, as celebrações apresentavam características próprias. Nas comunidades rurais, era possível realizar as comemorações em propriedades familiares, com a participação de parentes e amigos. A música, a gastronomia e os costumes acompanhavam as tradições de cada região.
O acervo do Museu Antropológico Diretor Pestana, em Ijuí, no Rio Grande do Sul, preserva uma fotografia do casamento de Justina Ida Lausch e Henrique Arthur Max Gieseler, realizado em 8 de julho de 1925. Os noivos aparecem diante da residência da família, em uma entrada ornamentada com folhagens. O vestido branco de Justina tem linhas retas e comprimento mais curto, seguindo a moda daquele período.
Esses registros também ajudam a compreender as diferenças econômicas e culturais do país. Enquanto os casamentos da elite podiam reunir numerosos convidados e receber destaque nos jornais, outras famílias organizavam comemorações mais reservadas, de acordo com suas possibilidades.
Apesar das particularidades, o casamento era um acontecimento importante na vida social brasileira, e muitas celebrações preservavam rituais que atravessaram gerações.

Flora Camargo e Bento Munhoz da Rocha Netto, em Curitiba, em 1929.
O casal aparece cercado pelas participantes do cortejo, que usam vestidos claros e carregam buquês. O registro documenta um casamento da elite paranaense.I Foto: Acervo Curitiba Histórica / Paraná Histórica.

Diva Roxo e Luis Carrasco Jiménez, no Rio de Janeiro, em 1920. O registro, feito após a cerimônia civil, mostra o vestido da noiva, o véu comprido e os grandes arranjos florais na residência do médico Henrique Roxo. I Foto: Reprodução / Notícias do Século.
Um século de transformações no universo dos casamentos
Ao observar os casamentos dos anos 1920, é possível reconhecer elementos que continuam presentes nas celebrações atuais. O vestido escolhido especialmente para a ocasião, o cortejo, a troca de alianças, o buquê, o bolo e a fotografia já faziam parte de diferentes tradições.
O que mudou foi a maneira como os casais passaram a interpretar esses costumes. Com o passar das décadas, as cerimônias ganharam novos formatos, a moda se diversificou e as possibilidades de personalização se ampliaram.
Os casamentos da década de 1920 revelam justamente esse momento de transição. Entre as formalidades herdadas do século anterior e as novidades que acompanhavam a vida moderna, os casais começaram a construir celebrações que ajudariam a definir muitas das tradições preservadas até hoje.

