As redes sociais mudaram a maneira como os brasileiros acompanham, discutem e participam da política. Se antes a comunicação dos candidatos dependia principalmente da televisão, do rádio e dos jornais, hoje publicações no Instagram, vídeos no TikTok e mensagens no WhatsApp fazem parte das estratégias eleitorais e do debate público. Essa transformação ampliou as possibilidades de participação, mas também trouxe preocupações com a desinformação e a polarização.
A dimensão dessa mudança acompanha o crescimento da conectividade no país. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 95% dos domicílios brasileiros tinham acesso à internet em 2025. Com isso, o ambiente digital passou a ocupar um espaço cada vez maior na circulação de informações e nas discussões sobre decisões políticas.
Das manifestações de 2013 às campanhas digitais
Um dos marcos dessa transformação ocorreu em junho de 2013, quando manifestações iniciadas contra o aumento das tarifas de transporte público ganharam proporções nacionais. Naquele período, o Facebook teve papel importante na organização dos protestos, na divulgação de informações e na mobilização de participantes.
Nos anos seguintes, as plataformas também ganharam protagonismo nas disputas eleitorais. Em 2018, a eleição presidencial evidenciou a importância de aplicativos de mensagens, especialmente o WhatsApp, para a circulação de conteúdos políticos.
A mudança continuou em 2022, quando as campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro utilizaram diferentes estratégias de comunicação digital. Um estudo publicado em 2025 na Revista Brasileira de Ciência Política identificou diferenças na frequência das publicações, nos formatos utilizados e nas formas de interação com os eleitores.
A presença digital também se tornou relevante nas disputas municipais. Um levantamento da Fundação Getulio Vargas (FGV), realizado durante as eleições de 2024, identificou que o Instagram concentrou 92% das interações analisadas nos perfis de candidatos às prefeituras das capitais brasileiras.
A aproximação entre políticos e eleitores
Uma das principais mudanças provocadas pelas redes sociais foi a possibilidade de comunicação direta entre representantes políticos e a população.
Atualmente, presidentes, governadores, parlamentares e candidatos podem divulgar propostas, comentar acontecimentos e responder a críticas por meio de seus próprios perfis.
Para os cidadãos, as plataformas também criaram oportunidades de participação. Comentários, publicações e campanhas digitais permitem cobrar posicionamentos, divulgar reivindicações e mobilizar outras pessoas em torno de determinadas causas.
Entretanto, essa comunicação direta não significa que todos os conteúdos tenham a mesma visibilidade. Algoritmos de recomendação, alcance das publicações e estratégias de divulgação influenciam quais mensagens chegam aos usuários.
Além disso, números elevados de curtidas, visualizações e compartilhamentos não representam necessariamente apoio eleitoral. O engajamento nas plataformas e a decisão de voto são indicadores diferentes.
Redes sociais também mudaram o consumo de notícias
A transformação política acompanha uma mudança na maneira como os brasileiros se informam.
Segundo o Digital News Report 2026, produzido pelo Instituto Reuters para o Estudo do Jornalismo, as redes sociais ultrapassaram a televisão como fonte semanal de notícias entre os brasileiros pesquisados durante a pandemia.
O levantamento também aponta mudanças nas plataformas utilizadas. Enquanto Facebook e WhatsApp tinham grande destaque em 2018, Instagram, WhatsApp e YouTube aparecem entre os principais canais de acesso às notícias em 2026. O TikTok também ganhou relevância, especialmente entre os mais jovens.
Outro fenômeno é o crescimento dos criadores de conteúdo. De acordo com a pesquisa, 33% dos entrevistados afirmaram ter consumido notícias produzidas por criadores ou influenciadores na semana anterior.
Nesse cenário, a interpretação de acontecimentos políticos deixou de circular exclusivamente pelos veículos tradicionais. Jornalistas, especialistas, influenciadores e cidadãos participam da produção e da distribuição de informações.
Desinformação e polarização se tornaram desafios
Apesar das oportunidades de participação, o crescimento das redes sociais também ampliou os desafios relacionados à qualidade das informações.
Mensagens falsas, vídeos manipulados e publicações retiradas de contexto podem circular rapidamente entre usuários. Em grupos privados de aplicativos de mensagens, a identificação da origem desses conteúdos e seu monitoramento podem ser ainda mais difíceis.
O problema já era observado nas eleições de 2018. Pesquisas sobre aquele período identificaram a utilização do WhatsApp como espaço de mobilização política e circulação de desinformação.
Outro desafio é a formação de ambientes digitais nos quais os usuários têm contato frequente com opiniões semelhantes às suas. Essa dinâmica pode dificultar o diálogo entre grupos com posições diferentes, embora a polarização política também esteja relacionada a fatores sociais, históricos e institucionais.
Os dados mais recentes também apontam uma redução da confiança nas notícias. Segundo o Instituto Reuters, apenas 36% dos brasileiros entrevistados em 2026 afirmaram confiar nas notícias em geral, uma queda de 23 pontos percentuais em aproximadamente uma década.
Justiça Eleitoral estabelece regras para o ambiente digital
Diante dessas transformações, a Justiça Eleitoral brasileira passou a estabelecer regras específicas para a propaganda política na internet.
Para as eleições de 2026, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) atualizou as normas relacionadas à utilização de inteligência artificial, à circulação de conteúdos manipulados e à atuação das plataformas digitais.
Entre as medidas está a obrigação de identificar determinados conteúdos eleitorais produzidos ou alterados por inteligência artificial. A utilização de deepfakes para favorecer ou prejudicar candidaturas também é proibida na propaganda eleitoral.
As regras procuram proteger a integridade das eleições, ao mesmo tempo em que preservam a liberdade de manifestação política dentro dos limites da legislação.
O futuro da participação política no Brasil
A expansão das redes sociais alterou a dinâmica das campanhas eleitorais e a relação cotidiana entre representantes e cidadãos.
Hoje, a disputa por atenção acontece continuamente, inclusive fora dos períodos eleitorais. Vídeos curtos, transmissões ao vivo e publicações nas plataformas passaram a integrar a comunicação de partidos, governos e movimentos sociais.
Ao mesmo tempo, o crescimento dessas ferramentas exige maior atenção à origem das informações e à maneira como os conteúdos são distribuídos.
O principal resultado dessa transformação é que o debate político brasileiro passou a acontecer em diferentes espaços, envolvendo novos participantes e formas de comunicação. O desafio está em conciliar essa ampliação da participação com o acesso a informações confiáveis e a possibilidade de diálogo entre opiniões divergentes.

