Bolsa Família às vésperas das urnas: coincidência ou estratégia?

Faltam pouco mais de duas semanas para o primeiro turno e o governo Lula acaba de anunciar um reajuste de 15,04% no Bolsa Família. O piso sobe de R$ 600 para R$ 691, o valor médio passa de R$ 675 para R$ 777, e o novo pagamento começa em outubro. Justamente no mês da eleição. O custo fica em R$ 5,8 bilhões neste ano e sobe para R$ 22 bilhões em 2027, segundo o ministro Bruno Moretti, que apresenta a medida como simples reposição da inflação acumulada desde 2022, dentro das regras fiscais.

É difícil não estranhar o timing. Torna evidente que usar o calendário social para embalar o calendário eleitoral virou hábito nacional!

O ponto que mais incomoda quem está do lado de quem produz, contrata e paga impostos é o efeito colateral do programa sobre o mercado de trabalho. Em nove estados brasileiros, o número de beneficiários do Bolsa Família já é maior que o de trabalhadores com carteira assinada. A informalidade segue travada perto de 38% da população ocupada. E economistas como Fernando de Holanda Barbosa Filho, da FGV Ibre, defendem que a renda garantida do benefício compete diretamente com a expectativa de ganho no emprego formal, o que pesa sobretudo sobre os jovens, que perdem justamente a fase em que deveriam acumular experiência e construir uma trajetória profissional. Quem vive no interior do país, em setores que dependem de mão de obra formal, sabe do que se fala quando alguém relata que um candidato pediu para não assinar a carteira para não perder o benefício. É relato recorrente, mesmo quando não aparece nas estatísticas oficiais.

Por justiça com o leitor, vale registrar que esse diagnóstico não é unânime. Um estudo do Ipea, com dados em painel da PNAD Contínua, chegou à conclusão oposta: o valor do benefício não representaria desincentivo generalizado ao trabalho, e a saída de beneficiários do mercado estaria concentrada em ocupações precárias, principalmente entre mulheres com filhos pequenos. O programa também prevê uma regra de proteção, que mantém 50% do benefício por até dois anos para quem consegue emprego formal, o que reduz o choque de perder a renda de uma hora para outra. É um debate técnico genuinamente em aberto, e qualquer um que trate um dos dois lados como verdade absoluta está simplificando demais uma discussão que a própria literatura econômica ainda não fechou.

Fica, de qualquer forma, uma pergunta que interessa a qualquer gestor, empresário ou profissional que sente na pele a dificuldade de contratar mão de obra qualificada hoje em dia: até onde vai essa lógica de tratar o aumento de gasto público como resposta padrão às vésperas de cada eleição? Reposição de inflação é justificativa técnica. Mas o momento escolhido para anunciá-la fala por si.