Coreia do Norte e Coreia do Sul permanecem tecnicamente em guerra, mesmo após mais de 73 anos do fim dos combates que marcaram a Guerra da Coreia. O conflito, iniciado em 1950, foi interrompido por uma trégua assinada em 27 de julho de 1953, mas os países nunca chegaram a um tratado definitivo de paz. Atualmente, a relação entre as duas nações continua marcada por disputas territoriais, ameaças militares e divergências políticas.
Nesta sexta-feira (23), a Coreia do Sul voltou a propor negociações militares com o governo norte-coreano para esclarecer os limites da fronteira e evitar novos confrontos. A iniciativa ocorre após incidentes envolvendo minas terrestres na região desmilitarizada que separa os dois países.
Como começou a Guerra da Coreia?
A divisão da península coreana começou em 1945, após o fim da Segunda Guerra Mundial e a derrota do Japão, que havia ocupado o território desde 1910. Com o avanço da Guerra Fria, a região foi dividida em duas áreas de influência: o norte, apoiado pela União Soviética, e o sul, pelos Estados Unidos.
Em 1948, foram estabelecidos dois governos distintos, cada um reivindicando legitimidade sobre a península. A divisão política se transformou em conflito armado em 25 de junho de 1950, quando tropas norte-coreanas atravessaram o paralelo 38 e invadiram o território sul-coreano.
A ofensiva provocou uma reação internacional. Os Estados Unidos lideraram uma coalizão militar autorizada pelo Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) para apoiar a Coreia do Sul. Do outro lado, a Coreia do Norte recebeu apoio da União Soviética e a intervenção militar da China.
Durante três anos, o conflito provocou milhões de mortes, entre militares e civis, além de destruir cidades e deslocar famílias inteiras. Apesar das sucessivas ofensivas, nenhum dos lados conseguiu conquistar definitivamente toda a península.
Por que a guerra nunca terminou oficialmente?
Em 27 de julho de 1953, representantes do Comando das Nações Unidas, da Coreia do Norte e das forças chinesas assinaram um cessar-fogo na localidade de Panmunjom.
O documento determinou a suspensão dos combates e estabeleceu uma zona desmilitarizada de aproximadamente quatro quilômetros de largura, conhecida como DMZ, que permanece separando as duas Coreias.
Entretanto, o acordo tinha caráter exclusivamente militar. Ele interrompeu as hostilidades, mas não resolveu as divergências políticas entre os governos. A Coreia do Sul também não foi signatária do documento, embora tenha passado a observar seus termos.
Como nenhum tratado de paz foi firmado posteriormente, a península permanece tecnicamente em estado de guerra. Isso não significa que exista um combate contínuo desde 1953, mas que o encerramento político e diplomático do conflito nunca foi formalizado.
Ao longo das décadas, os países registraram confrontos pontuais, disputas marítimas e períodos de aproximação diplomática, sem alcançar uma solução definitiva.
Como funciona a política das duas Coreias atualmente?
Após a guerra, os dois países seguiram caminhos políticos e econômicos diferentes.
A Coreia do Sul desenvolveu uma economia de mercado e, depois de décadas de governos autoritários, consolidou um sistema democrático multipartidário. Atualmente, é governada pelo presidente Lee Jae Myung, que defende a redução das tensões e a retomada do diálogo com o país vizinho.
Já a Coreia do Norte permanece sob um regime autoritário de partido único, liderado por Kim Jong Un. O país mantém rígido controle político e social, além de investir em seu programa nuclear e no desenvolvimento de mísseis balísticos.
Em 2026, o governo norte-coreano aprofundou sua mudança de posicionamento em relação ao Sul. Uma revisão constitucional retirou referências à reunificação da península e passou a tratar os territórios como Estados separados. Kim Jong Un também reforçou a classificação da Coreia do Sul como um país hostil.
A mudança representa um afastamento da política de reunificação que, durante décadas, permaneceu como um dos objetivos declarados dos dois governos, apesar das diferenças ideológicas.
Tensões militares continuam em 2026
As relações entre os países atravessam um novo período de dificuldades diplomáticas. A Coreia do Norte ampliou a construção de cercas, estradas militares e estruturas defensivas próximas à fronteira, enquanto a Coreia do Sul mantém sua aliança militar com os Estados Unidos.
Em setembro, explosões de minas terrestres na região desmilitarizada deixaram militares sul-coreanos feridos. Seul atribuiu o episódio a minas instaladas por forças norte-coreanas em seu território, mas Pyongyang rejeitou a acusação.
Nesta sexta-feira (23), o governo sul-coreano propôs novas conversas militares para esclarecer a localização exata da linha de demarcação e reduzir o risco de confrontos acidentais. Até o anúncio, a Coreia do Norte não havia aceitado a iniciativa.
O programa nuclear norte-coreano também permanece como um dos principais obstáculos diplomáticos. Enquanto Pyongyang considera suas armas nucleares fundamentais para a segurança nacional, Seul e Washington defendem medidas para limitar e, posteriormente, eliminar esse arsenal.
Apesar das divergências, a diplomacia continua sendo uma alternativa defendida pelo governo sul-coreano. Em setembro, Lee Jae Myung voltou a pedir a retomada das negociações entre Estados Unidos e Coreia do Norte, com o objetivo de criar condições para um acordo de paz.
Mais de sete décadas depois da assinatura do armistício, a fronteira entre as duas Coreias permanece militarizada. Sem um tratado definitivo, o futuro das relações depende de negociações capazes de transformar a interrupção dos combates de 1953 em um acordo permanente de paz.

