Depois de quase três anos longe das salas de aula, centenas de milhares de crianças e adolescentes começaram a retomar o ensino presencial na Faixa de Gaza. O novo ano letivo teve início no sábado (19), em um cenário muito diferente daquele anterior à guerra: escolas parcialmente destruídas, salas improvisadas e tendas passaram a receber estudantes em diferentes pontos do território.
Segundo o UNICEF, cerca de 98% dos prédios escolares de Gaza foram danificados durante o conflito, e mais de 93% precisam de grandes reformas ou reconstrução completa para voltar a funcionar plenamente. Antes do início deste ano letivo, aproximadamente 700 mil crianças estavam há quase três anos sem frequentar regularmente uma escola presencial.
Mesmo diante dessa estrutura limitada, autoridades locais de educação e organizações humanitárias decidiram avançar com o calendário de 2026/2027. A expectativa é que ao menos 540 mil estudantes tenham algum tipo de aula presencial, distribuídos entre escolas que ainda podem ser utilizadas, centros temporários de aprendizagem e espaços improvisados.
Salas de aula improvisadas entre os escombros
Em Khan Younis, no sul de Gaza, algumas das novas “salas” foram montadas com tendas, lonas, madeira e estruturas metálicas. Em determinados espaços, colchões no chão e um quadro-negro formam praticamente todo o mobiliário disponível para professores e alunos.
A volta, ainda assim, representa uma mudança importante para estudantes que passaram os últimos anos dependendo de atividades remotas ou alternativas. Uma adolescente de 15 anos ouvida pela Reuters contou que passou parte desse período estudando pelo celular e sem contato presencial com professores. Agora, voltou às aulas em uma estrutura montada dentro de um acampamento.

Além dos danos físicos às escolas, a falta de materiais básicos continua sendo outro obstáculo. Cadernos, canetas, roupas e outros itens escolares ficaram mais caros e inacessíveis para muitas famílias. Segundo a Reuters, um caderno que antes custava três shekels (moeda israelense amplamente utilizada na Faixa de Gaza) passou a ser vendido por cerca de 15, em meio às restrições de entrada de mercadorias e à escassez de produtos.
Nas semanas anteriores ao início do ano letivo, organizações humanitárias começaram a distribuir mochilas e materiais de aprendizagem. Até o fim de agosto, parceiros do setor de educação haviam recebido mais de 155 mil mochilas, além de kits escolares destinados a centenas de espaços temporários espalhados pelo território.
Educação tenta recuperar anos interrompidos
A dimensão do desafio vai além da reconstrução de prédios. O UNICEF estima que centenas de milhares de crianças tiveram seu desenvolvimento escolar afetado pela ausência prolongada de aulas regulares, pelos deslocamentos forçados e pela insegurança. O órgão considera a retomada da educação uma das prioridades para restabelecer algum grau de rotina e estabilidade na vida dos estudantes.
Segundo autoridades educacionais de Gaza citadas pela Reuters, cerca de 22 mil estudantes e mais de 770 profissionais da educação morreram durante o conflito, entre eles 532 professores. Os números são apresentados pelas autoridades locais e refletem o impacto da guerra sobre uma comunidade escolar que, antes de outubro de 2023, atendia centenas de milhares de crianças.
Desde outubro de 2023, a intensificação dos ataques e das operações militares em Gaza provocou destruição em larga escala, deslocamentos e a interrupção prolongada das aulas presenciais
Enquanto reconstrução e segurança permanecem como questões em aberto, o início do ano letivo leva crianças novamente diante de professores e colegas. Em muitos casos, a sala de aula ainda é uma tenda cercada por edifícios danificados, mas a tentativa de recuperar os anos perdidos já começou.

