O embate em torno do Caso Master ganhou um novo e explosivo capítulo nesta terça-feira (8/9). O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF) e relator das investigações sobre o Banco Master, determinou o afastamento preventivo por 90 dias do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência Policial, Leandro Almada da Costa.
O que motivou a decisão
Segundo a decisão de Mendonça, a medida se baseia na descoberta de relatórios sigilosos produzidos pela PF que teriam monitorado, de forma "sistemática e ilegal", sua atuação como ministro por mais de 30 dias — e também a do advogado-geral da União, Jorge Messias. O magistrado também determinou que a Corregedoria da corporação investigue as circunstâncias em que esses relatórios foram produzidos, além de suspender a elaboração ou o compartilhamento de qualquer documento sobre a atuação funcional de autoridades.
O afastamento foi levado à Segunda Turma do STF para referendo. Os ministros Luiz Fux e Nunes Marques acompanharam Mendonça, formando maioria pela manutenção da medida, mas o julgamento foi suspenso após pedido de vista de Gilmar Mendes — o que mantém Andrei Rodrigues afastado até a retomada da análise.
Quem é Andrei Rodrigues
À frente da PF desde janeiro de 2023, Andrei Augusto Passos Rodrigues está na corporação há mais de 20 anos. Formado em Direito pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEL-RS), tem mestrado em Alta Gestão em Segurança Internacional pelo Centro Universitário da Guarda Civil da Espanha e pela Universidade Carlos III de Madri, onde também atuou como oficial de ligação da corporação.
Seu currículo inclui a função de Secretário Extraordinário de Segurança para Grandes Eventos, período em que respondeu pela segurança da Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016. Rodrigues também foi chefe de segurança pessoal de Dilma Rousseff — coordenou seu esquema durante a campanha de 2010, quando ela se elegeu presidente pela primeira vez — e voltou a exercer função semelhante na campanha de Lula em 2022. Ao tomar posse na direção-geral da PF, prometeu reestruturar a instituição e blindá-la de interferências externas.
Já no comando da corporação, chefiou as operações Compliance Zero (fraudes financeiras do Banco Master) e Sem Desconto (descontos indevidos do INSS), além da Overclean, que apura desvio de recursos de emendas parlamentares, lavagem de dinheiro e fraude em licitações.
Quem é Leandro Almada da Costa
Diretor de Inteligência Policial da PF desde dezembro de 2024, Leandro Almada da Costa é formado em Direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e soma quase 20 anos de carreira na corporação, que integrou em 2008, após passagens pelo Exército (1990-1997) e pela Polícia Civil de Minas Gerais (1997-2007). Atuou nas investigações sobre o assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, em 2018, e comandou as superintendências da PF no Amazonas, na Bahia e no Rio de Janeiro entre 2020 e 2024.
Reação do governo e da cúpula da PF
A decisão gerou reação imediata dentro do Palácio do Planalto. O ministro da Secretaria de Relações Institucionais, José Guimarães, classificou a medida como uma intromissão no comando da corporação às vésperas da eleição, dizendo enxergar nela um "cheiro eleitoral". A avaliação do governo é de que o afastamento interfere em uma atribuição constitucional do presidente da República, responsável por nomear o chefe da PF — Andrei Rodrigues foi indicado por Lula ao cargo. A Advocacia-Geral da União deve recorrer da decisão.
Internamente, a medida também provocou forte reação: onze diretores da Polícia Federal colocaram os cargos à disposição em manifestação de apoio a Andrei Rodrigues e Leandro Almada. O diretor-executivo William Murad, que assumiu interinamente o comando da corporação, declarou confiança no diretor-geral afastado.
Um capítulo da disputa entre STF e PF no Caso Master
O afastamento é o desdobramento mais recente de uma escalada de tensões entre André Mendonça e outro ministro do STF, Alexandre de Moraes, em torno da condução das investigações sobre o Banco Master e sobre fraudes no INSS. Um relatório produzido pela própria Polícia Federal foi usado por Moraes para pedir a apuração de supostos crimes cometidos por Mendonça na condução dos dois casos — o que, segundo analistas, ajuda a explicar o movimento de Mendonça contra a cúpula da corporação.
A crise em torno do Caso Master, que começou como uma investigação sobre irregularidades na gestão financeira do Banco Master, já expôs divergências internas na própria Corte e passou a interferir diretamente no comando da Polícia Federal a poucas semanas do início da campanha eleitoral de 2026.
Fontes: Metrópoles, ND+, Agência Brasil, Portal Terra.

